
Não resta dúvida de que o dinheiro dos contribuintes brasileiros costuma ser mal gasto. Por vezes, um investimento vira uma ponte ligando nada a lugar nenhum. No entanto, essa situação já foi pior. As atuais administrações tendem a ser melhores do que as que criaram essa imagem. Por isso, é preciso desfazer alguns mitos sobre os dispêndios do erário.
O primeiro deles diz respeito às despesas com pessoal. Diz a lenda que houve um tempo em que um semianalfabeto entrava como contínuo no serviço público e se jubilava com proventos de marajá. Após a Constituição de 88 e a Lei de Responsabilidade Fiscal, o que sobrou são funcionários concursados, muitos pós-graduados, a maioria ganhando pouco. Hoje, alguém de poucas letras só repete a trajetória mítica elegendo-se ou assessorando algum parlamentar.
Outra alegoria é a do gasto com inativos. Dizem que ele é crescente e, em alguns casos, maior do que o com servidores em atividade. Isso é parte da verdade. Falta explicar que nessas situações, em geral, há defasagem nos quadros de pessoal. A matemática não mente. Quando o número de ativos diminui com aposentadorias e não é reposto, um dos lados aumentará e o outro reduzirá. O resto é mito.
Agora surgiu uma nova fábula. Estudo recente do Ipea constatou a elevação do custeio e a diminuição dos investimentos. Exceções à parte, é necessário entender o significado disso na prática. Imagine dois municípios. Em um deles se construiu um ótimo hospital com equipamentos avançados, compensando-se o alto investimento com corte nos gastos em suprimentos, limpeza e conservação. O salário dos médicos é baixo - só despreparados aceitam o emprego. No outro a política foi a de pagar bem aos servidores para poder contratar os melhores. Eles atuam em um prédio antigo, com aparelhos antiquados, porém há manutenção e disponibilidade de material.
Qual dos dois você escolheria para cuidar da sua saúde? Se no segundo, sua opção é por pouco investimento e muita despesa com pessoal e custeio.
O ideal é também ter o hospital novo, porém essa utopia fica cada vez mais distante quando a remuneração e os recursos materiais são tratados como desperdício. Sem profissionais e condições de trabalho, os serviços que restarão para população são o nada e o lugar nenhum. Ah, mas vai sobrar dinheiro para as pontes.
* Publicado no Diário de Canoas e em O Correio de Cachoeira do Sul, 21 de janeiro, em A Razão, 23 de janeiro, na Gazeta do Sul, 26 de janeiro, e no Jornal NH, 26 de fevereiro de 2009.

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