segunda-feira, 16 de março de 2009

A última ponta


Os resultados da pesquisa sobre os jovens e o fumo, encomendada pela Aliança de Controle do Tabagismo ao Datafolha, são surpreendentes de diversas maneiras. Os dados obtidos podem ser considerados notícias agradáveis e servem para confirmar uma tendência. Porém, do ponto de vista gaúcho, são um tanto decepcionantes.

Uma das boas novas é que 85% dos 560 jovens pesquisados, de ambos os sexos, são contrários ao fumo em ambientes fechados. Até entre os fumantes a maioria tem essa posição (63%). Realizado em seis capitais no final de 2008, o levantamento divulgado agora apresenta uma constante. Independente de sexo, faixa etária, cidade ou local freqüentado – bar, casa noturna, restaurante ou lanchonete, a maior parte dos entrevistados se posicionou a favor de espaços livres do cigarro. Ou seja, a juventude não quer ir a lugares enfumaçados.

Parece que as pessoas cansaram de serem fumantes passivas, de ficarem com as roupas e os cabelos fedendo, de pisarem em cinzas e tocos e até do eventual esbarrão com uma ponta de cigarro aceso. No entanto, o principal é que há uma nova postura contra a permissividade de atitudes que são prejudiciais à saúde de todos.

Em uma época em que se debatem o uso de drogas e restrições ao álcool, essa pesquisa ratifica a eficácia do combate integrado a um hábito nocivo, conforme propõe o Plano das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O controle do tabagismo no Brasil tem combinado três sistemas regulatórios: o legal, o cultural e o moral. Ao mesmo tempo em que se estabelecem restrições progressivas ao ato de fumar, a sociedade exerce a fiscalização para que as leis funcionem e o costume em si se tornou depreciativo para quem o possui. Quando tudo isso acontece, o vício diminui. Se há êxito com o cigarro também poderia ser tentado com o álcool e outras drogas.

A comprovação desse fato está na revelação de que apenas 13% dos entrevistados fumam na faixa etária pesquisada de 12 a 22 anos. Quando segmentados por capitais, os números são iguais ou menores. A taxa é de 13% em São Paulo, 12% no Rio, 10% em Salvador e Belo Horizonte e 6% em Brasília. A surpresa desagradável fica por conta dos resultados de Porto Alegre, que apresentou o maior número de jovens fumantes: 28%. Com mais do que o dobro da média do levantamento, o percentual do vício entre os gaúchos não deixa de ser mais um sintoma da forma por vezes irracional como se resiste a mudanças nesse rincão.

Em uma ou duas gerações quando o fumo for apenas uma triste lembrança para o resto do país, aqui na nossa posição meridional seremos a última ponta acesa desse hábito que a maioria já não aprova. Logo, vale lembrar uma das campanhas antitabagistas e perguntar: quando vamos apagar essa ideia?

* Publicado no Correio de Gravataí, 16 de março de 2009.

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