quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Investimentos olímpicos

Investimentos olímpicos

O fato de o Brasil ser um país com a vocação para o desperdício provocou uma reação compreensiva. Toda despesa é questionada sob o viés da responsabilidade fiscal, sem diferenciar-se o que é gasto do que é investimento. É o caso do debate em torno dos recursos empregados no esporte olímpico.

Segundo reportagem do jornal O Globo, aplicando-se a frieza contábil, chegou-se ao valor de R$ 53 milhões como o custo de cada medalha brasileira conquistada na China. Nesse cálculo, incorre-se em três erros: falta de paradigma financeiro; subestimação da importância do esporte; e incompreensão dos resultados alcançados.

Quanto deveria ser investido na obtenção de uma medalha? A China ganhou cem delas e gastou R$ 68 bilhões para realizar os Jogos (R$ 680 milhões para cada ouro, prata ou bronze). Logo, cada uma custou quase treze vezes mais do que as brasileiras. Ou seja, para atingir um rendimento chinês, o Brasil precisaria usar esse fator de multiplicação, seja nos valores, seja no tempo de preparação. Já que se reclama do dinheiro consumido no ciclo olímpico, o que implica na ausência de perspectiva de aumento dele, restaria esperar mais 52 anos para se ter uma colocação que não possa ser chamada de pífia.

A cultura fiscal costuma esquecer a repercussão social de algumas despesas. É preciso lembrar que os dispêndios olímpicos envolvem a remuneração não só de atletas, mas de toda uma indústria – de cadarços de tênis a criação de cavalos. De forma direta e indireta, há geração de emprego e movimentação econômica associada ao esporte. Deve acrescentar-se ainda o exemplo que é transmitido de saúde e de qualidade de vida.

Por fim, a contabilidade das conquistas apenas pelo número de medalhas oblitera visíveis avanços do país. As mulheres ocuparam espaços em modalidades antes dominadas pelos homens. As participações em finais aumentaram de 30 em Atenas para 38 agora. E houve inúmeras colocações classificadas como as melhores da história. Além disso, ocorreu uma enorme renovação de atletas o que redundou em menos ouros, mas também na perspectiva de que em Londres, com experiência, eles sejam mais bem sucedidos.

Fiscalizar o que se gasta é fundamental, mas isso não pode ser pretexto para redução dos recursos aplicados no desenvolvimento esportivo, nem razão para se ter menos orgulho. Dinheiro colocado no esporte nunca é desperdício. Os dólares, euros ou reais lançados na coluna das despesas olímpicas são sempre investimentos. Os chineses que o digam.

* Publicado no Diário de Canoas, 04 de setembro, em O Informativo do Vale, 15 de setembro, e no Jornal VS, 13 de outubro de 2008.

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